Entrevista - Marcos Alberto Correa

Entrevista com Marcos Alberto Correa em comemoração aos 70 anos da Sociedade Hípica de Campinas, em 2018.

Este depoimento faz parte de uma série de entrevistas realizadas para as comemorações dos 70 anos da Sociedade Hípica de Campinas. No total, 33 pessoas foram entrevistadas para o projeto que implantou o Centro de Memória do Clube em 2018: Abelardo Pinto de Lemos Neto, Alfredo Pupo de Campos Ferreira Filho, Antoine Kolokathis, Darcy Paz de Pádua, Dora Ann Lange Canhos, Eliana Aparecida Nascimento Evangelista, Elvino Silva Neto, Elza Maria Spínola Castro Armani, Hamilton de Oliveira, Isabela Affonso Ferreira, Ismar Augusto Ribeiro Neto, José Abel Carvalho de Moura, José Fernando Moreira Monteiro da Silva, José Luiz Arruda Toledo, Juventino Nascimento, Luiz Antônio Baldo Pupo de Campos Ferreira, Márcio Coluccini Francisco, Marcos Alberto Correa, Maria Helena Guimarães Pompêo de Camargo, Maria Helena Barros Ribeiro de Siqueira, Maria Stella Roge Ferreira Grieco, Mauro Correa, Mayra Magalhães Pugliesi, Noreen Campbell de Aguirre, Osvaldo Urbano, Pedro Henrique Delamain Pupo Nogueira, Peter B. B. Walker, Raul Teixeira Penteado Filho, Renata Maria Strazzacappa Barone, Roberto Schmidt Neto, Sílvia Amaral Palazzi Zakia, Vera Vieira, Vítor Trabulsi.

Entrevistado: Marcos Alberto Correa. Coordenador do Departamento de Recursos Humanos. 51 anos. Nascimento: 17/02/1967.

Um cumim fazendo história na Hípica

Eu me lembro muito bem da senzala, é uma área muito marcante para gente, também a Casa do Atleta que antigamente se chamava Casa do Conde, tendo em vista que o antigo administrador se chamava Sr. José Conde de Araújo e morava lá. O que me lembro muito bem da minha infância, é da escolinha que hoje é a Capela do clube (tombada pelo Condepacc – Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas em 2002), chegou a funcionar como uma escola de 1º grau. Era uma extensão da escola que tinha na Fazenda Mato Dentro, onde é o Parque Ecológico hoje. Então marcou muito, se não me engano a minha primeira professora se chamava Maria Luiza, a gente vinha, passava pelo lado do Catetinho, descia aqui, passava pela ponte para chegar até a igrejinha, funcionava como uma escola como eu disse. Lá estudavam os filhos de quem morava aqui na colônia da Hípica, e algumas pessoas da comunidade (Vila Brandina). Naquela época estava nascendo a comunidade que hoje nós temos como vizinha, a Vila Brandina, então algumas pessoas de lá também, se não me engano alguns também trabalharam aqui na Hípica, mas foram embora. O que me marcou muito também, na época a gente começou a trabalhar muito cedo aqui, eu acho que com 8 ou 9 anos de idade a gente já trabalhava, então tinham os meninos que moravam aqui e o meninos da comunidade também. Eu me lembro que meu pai na época contratava a gente, garoto naquela época podia trabalhar com 9, 10 anos de idade, o que eu achava ótimo, porque devo minha educação a isso, de começar a trabalhar bem cedo. Eu me lembro que a gente vinha aqui na Senzala, cada garoto pegava uma latinha de tinta e uma brocha, as árvores do clube eram todas pintadas até uma certa altura de branco, então a gente pintava com a brocha. Na época o meu pai era Administrador Geral, fornecia material para a gente, então a gente andava pelo clube inteiro pintando. E o que me marcou muito é que quando a gente ia receber, ia na tesouraria receber, recebia aquelas notinhas de um real e era uma grande coisa para a gente! Recebia o pagamento, passava no Catetinho e comprava uma Coca-Cola e um misto quente. “Nossa senhora, você tá comendo um misto quente e tomando uma Coca-Cola? O que é isso, hein?!”, porque na época era Ki-suco, e olhe lá!!!
Depois disso eu passei a ser cumim na sede social, a Hípica na época servia um almoço esplendoroso, até hoje na minha vida eu nunca vi igual, era um buffet que se fazia no salão social, muita fartura, muita fartura mesmo. Mas eu não comecei exatamente como cumim na sede social, comecei a trabalhar na lareira. Na época eu me lembro muito bem de um garçom que se chamava “Bauru”, trabalhou muito tempo ali, e eu me lembro muito bem que a gente servia o Dr. Lix da Cunha, o patrono da empresa Lix da Cunha, e todo sábado de tarde eles estava ali na lareira com os óculos escuros, verdes, transmitia um respeito enorme. Me lembro que eu era muito garotinho, tinha 10 ou 11 anos, algo assim, e na lareira não podia entrar menores de 18 anos. Aí uma vez um associado vendo aquilo questionou: “Por que não pode entrar meu filho menor de 18 anos, mas ele que tem 12 está trabalhando aqui?”. Fui transferido para o salão social! A gente trabalhava como cumim, ajudante de garçom, hoje em dia se vê muito pouco, não tem mais, mas naquela época era bastante utilizado. Uma coisa muito interessante do restaurante e do almoço que se servia na época, o clube tinha duas peruas Kombi, então como era uma fartura, realmente era uma fartura enorme, era uma coisa maravilhosa, o clube lotava essas duas Kombi, me marcou bastante, a gente ia ali na comunidade (Vila Brandina) e distribuía, não eram “sobras ou restos”, eram pratos que realmente estavam inteiros! Eu me lembro muito bem do chef de cozinha, na época não se chamava cozinheiro, era chef, o Zé Gatti (José Gatti), foi muito famoso, acho que até lembrado pelos sócios mais antigos. Depois disso eu fui trabalhar no bar do futebol, hoje o Bar dos Esportes, na época se chamava bar do futebol porque atendia o pessoal que jogava futebol e algumas pessoas que jogavam tênis. Eu trabalhei muito tempo ali, uns dois ou três anos, os bares no clube eram administrados por concessionários, assim como são hoje, trabalhei muito tempo ali, conheci muitos associados.
Entrei pelo clube, fui registrado, foi em 1981 isso, tinha 14 anos, fui registrado para trabalhar lá no campo de futebol, trabalhar junto com o Itatiba (Juventino Nascimento-entrevistado), que ainda está até hoje lá em cima. Fiquei lá um bom tempo, acho que até 1985, fazia os serviços lá do campo, roça de campo, final de semana cuidava dos rachões (partidas de futebol). Hoje em dia me parece que são poucos, eu andei procurando saber e são poucos rachões que andam tendo lá, mas antigamente era uma coisa super disputada: o pessoal chegava 6 horas a manhã para marcar a lista de domingo, 5h30 da manhã tinha gente chegando para marcar lista de chegada para ter o jogo, era muito interessante isso. Depois disso eu comecei a fazer algum tipo de serviço na Secretaria de Esportes, algum tipo de serviço administrativo, até ali eu só fazia o serviço realmente de manutenção, trabalho realmente braçal. No final de 1985, o Sr. Orival Andries que na época era uma espécie de Gerente Geral do clube, ele era uma pessoa muito boa que nos ajudou bastante, ele e o China, que na época era o Coordenador de Esportes, abriu uma vaga de auxiliar no RH, ai o China me indicou. Como eu estava fazendo serviço administrativo na Secretaria de Esportes, me indicou e eu me lembro até hoje, o Orival veio para mim e perguntou: “Surgiu uma vaga, você tem datilografia?”, mas eu não estava fazendo datilografia, eu estudava, mas não fazia datilografia e falei: “Eu não tenho, mas estou fazendo o curso”. Aí eu fui para o RH no início de 1986, como auxiliar de departamento pessoal e fiquei até hoje".